Monthly Archives: November 2011

O mais próximo que consigo chegar de uma oração

Em seu último suspiro, nenhuma palavra: um olhar bastava. Com sua infinita sabedoria, certamente estava ciente de que aquele adeus era realmente uma despedida. Partira, então, para sempre, com um adeus doloroso a marcar o coração de todos próximos a ele.

Grande homem, aquele. Conhecia de quase tudo um pouco. Sabia sorrir, sabia encobrir seus temores com suas palavras jocosas. Eu nunca soube dizer ao certo quem ele era, talvez fosse um filósofo de inquietação sem precedentes, por trás daqueles olhos de paz, ou talvez fosse só aquela figura alegre, sempre esperada, sempre querida, sempre com algo a dizer. Meu respeito e admiração por ele são, em parte, por essa característica singular.

Em meus últimos momentos com ele, não pude dizer muita coisa. Envolto em cobertores e invadido por fios e tubos, naquela cama de hospital, rodeado por máquinas e substâncias que o mantinham vivo, ele conversava com meu pai, seu grande amigo que há anos não via. Sua voz era fraca e tinha dificuldade em sorrir, mas ainda assim tinha a expressão doce e as palavras sábias de que me lembrava. Eu só observava e cena… aquela cena maravilhosa e ao  mesmo tempo tão triste que me fazia olhar de tempos em tempos para o chão e me concentrar na contenção das lágrimas fugidias. Eu sabia que era a última vez que o veria e algo nos olhares que ele dirigia a mim me dizia que ele também sabia disso.

Não pude agradecê-lo pessoalmente, então o direi aqui. Em minha infância , foi para mim um exemplo de inteligência, tanto natural quanto adquirida, pelo qual eu tinha muito apreço. Muitas vezes cuidara de mim como um filho. Me aguentara nos irrequietos primeiros anos de vida, com sua paciência enorme. Me lembro que ele era o único a quem era capaz de escutar completamente em silêncio e, mesmo  criança, eu tinha noção do valor imenso de suas palavras. Apesar da enorme distância entre nós nos últimos anos, pela qual eu culpo a maldita rotina que toma a todos o tempo, sempre o guardei em mim como referência, um exemplo de vida. Agradeço a ele, onde quer que esteja,  por tudo isso.

Temo que isso é o mais próximo que consigo chegar de uma oração. Poderia me ajoelhar agora mesmo e rezar por sua alma, mas tal ato não seria tão verdadeiro quanto escrever essas palavras… prezar a verdade também foi algo que aprendi com ele. Dito isso, digo um último adeus a meu caro amigo. Garanto que sua memória nunca perderá seu brilho celeste.

Se todos fossem poetas…

Centenas de transeuntes davam àquela via uma aparência de formigueiro. Rostos apressados, alguns preocupados e outros sem expressão alguma, transitavam ligeiros pela rua apinhada. Tinham o tempo como inimigo comum, além da grande semelhança  de terem a paciência diminuta de um infante. Eu caminhava em meio a toda essa gente, sem pressa, tentando quantificar o quão impressionante era aquela imensidão de pensamentos, de sentimentos trancados nos músculos contraídos dos rostos desses viandantes. Imaginava como seria transformar cada pensamento, cada delírio ínfimo de cada uma dessas pessoas em algo gráfico, visível, tátil… seria algo imenso, terrivelmente imenso, que não poderia ser contido nesse mundo minúsculo. Talvez o universo seja isto,  uma realização das obras da sinapse de algum pensador, de algum ser paciente, possuidor de um tempo sem fim para o objeto de sua imaginação…

Se toda essa gente ao menos soubesse do potencial que possuem, do pecado que cometem ao agregar a futilidade desse mundo a seu tempo, quando sua mente contém maravilhas paradisíacas, tão reais quanto qualquer afobado escritório metropolitano, teriam uma vida rica, teriam a fortuna que almejam diariamente e buscam inutilmente nas constâncias mundanas e nas obrigações de fundamentação contraditória impostas por essa sociedade de orates. A imaginação é a porta para a eternidade, é a alma da arte que muitos insistem em não compreender. Ela é a essência da humanidade, o grande presente dado a nós pelo criador, diria aos crentes, e a premiação suprema de nossa vitória na evolução, diria aos céticos. O entendimento dessa verdade é o portal para o que chamam por aí de felicidade.

Assim eu ia viajando pelas hipóteses, enquanto observava aquela rua atravancada. Daria uma bela obra de arte, aquela expressão sonhadora e sorridente, em meio ao caos das 18:00…

The man who knew how to live

Inventiveness was his most recognizable trait. He could entertain himself and whomever else he wanted, anywhere and anytime, using only his imaginative skills, with a little help from his surroundings. It’s a fact that this ability often drove him away from his acquaintances, but he was nevertheless a crowd pleaser, a true storyteller.

His ever-present smile was a charming way to keep those who listened listening still. No one could take their gaze or their ears off his glistening hazel eyes when a tale was being sung by his silver tongue. He wasn’t all that good-looking, but he knew how to catch people attention when he wanted to. On the other hand, he also knew just how appear like an everyman,  a nobody, an invisible snowflake in the evening. And enjoyed it on both situations.

In fact, he was hardly ever displeased by anything. He knew life was too short, and knowing how to live it well was a virtue he surely had. Sometimes, he even succeeded in raising people’s moods. His presence was so light, so easy, so joyous, that folks just had the tendency of smiling next to him. “He has a gift”, they used to say.

Gifted and full of life, he was. Until the last of his days, enjoying each and every of his emotions. Not bequeathing his dreams to become anything that wasn’t himself, nor being passively beckoned to do what didn’t  please him. Yes, it’s a notorious fact that he really enjoyed his whole life.

My area of expertise

As I wander alone, my eyes belong to the evening.

The clouds cover the sky in a rug of grayness.

Gray skies, gray pavement, gray buildings,

gray thoughts, gray dreams, gray mind.

.

Backbeat, my steps call no attention;

nor do my gray feet, or my gray chest.

I’m walking, and walking I notice

that walking is all I do.

.

What for? Who am I kidding?

What am I going to accomplish?

Gray questions, these.

My area of expertise.

.

I stop and I stare:

gray, everywhere.

I can see it now:

I turn around.

.

And off I go,

back home.

This time,

not alone.

Amber Horizon

Intricately raising the prominence of a phenomenon

so light, so slender, so graceful,

that the beholder’s eyes couldn’t  help but to be bound to it.

As rare as it may be, it happened:

the rush of his blood slowed down;

the burning of his skin dwindled;

the force of his desire escalated;

the hazel dream took over the Ashtray’s psych

and the Ashtray was no longer.

Without the demonic cigars plaguing his fate,

he became the Amber Horizon, abandoning the ghost of his hate.