Monthly Archives: March 2012

Renegando subterfúgios

Hoje, vivo a base de ódio puro e sangue seco.

Não me atrevo a monopolizar o sofrimento. Sei que há sempre um pouco que lhe sobrará. Se tento calcular meus infortúnios, perco meu presente tentando transmutar o que já não mais me implica esforço. Pois então, dama maldita covardia, entrego-lhe meu passado das mão sujas de rancor. Faça dele algo teu, ponha-o exposto na prateleira imunda do seu ego e preencha-o com vazio. Não haverá mais o que fazer, não haverá mais a quem usurpar. Se é o meu inóspito passado que queres, lhe revogo qualquer resistência.

Só, impuro e desnudo de humildade sóbria, encaro hoje a vida como uma bíblia ao lado de uma lâmina ensanguentada: evito falar no Inferno, mas quem me acaricia ao cair da solidão noturna é o próprio demônio de fogo. São as piras do julgamento que aquecem minha alma com chama invigorante! É por tal tragédia que me sinto uno. A putridão sussurra ríspidas palavras à minha existência, secando assim qualquer fugidia lágrima de fraqueza. O passado que lhe entrego crepita, as vozes de clemência, presas na clausura do peito, admiram o gozo de não serem ouvidas e os inúmeros erros tiritam de adrenalina por sua agenda lotada de compromissos rotineiros.

Quem percebe esta minha pele que queima já reconhece o fado irrevogável. Não há mais quem me impeça de arder.

A opinião de um alguém (EN)

Conclusions, thesis closures, epilogues, final arches, endings… who needs those?

The end is rough, abrupt, sudden. Nothing is prepared to cease its existence. There isn’t, indeed, a stage where what is real begins its extinction. In one given moment, something exists, and on the next one it doesn’t. The adding of a last chapter is a kind of literary terminal cancer, it’s the reading experience’s delimitation. It’s the same as to say “you’d better start detaching yourself from what you felt while you were reading this book”. In that case, reading the last chapter of that work acquires a different feeling that the reading experience of the other chapters. Well, if the ending is abrupt, the story’s impact is not diminished and perpetuates its existence inside the reader’s mind.

A opinião de um alguém (PT)

Conclusões, fechamentos de teses, epílogos, arcos finais, encerramentos… quem precisa deles?

O fim é brusco, rude, repentino. Nada é preparado para acabar. Não há, de fato, um estágio em que o que existe entra em extinção. Em um momento, algo é real, e no momento seguinte já não o é. O acréscimo de um último capítulo é uma espécie de câncer terminal literário, é a delimitação da experiência de leitura. É o mesmo que dizer “é melhor ir se preparando para desapegar-se da experiência que sentira quando lia esta obra”. Nesse caso, a experiência de leitura no último capítulo se difere das outras. Ora, se o fim for realmente de súbito, a história não cessa o seu impacto e continua a perpetuar sua existência na mente de quem a leu.

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A segunda cena:

Ele chegava perto, com fascínio expresso abertamente em seu rosto e com as incertas intenções lhe escapando por entre os dentes, toda vez que sorria embaraçado. Andava desajeitado, tropeçando nos obstáculos que o caminho até ela  lhe impunham, talvez a fim de fazê-lo pensar melhor no que fazia. Seus olhos esbanjavam mil constelações, de modo que o castanho-escuro se transformara em uma paisagem distante e sem importância. O jovem não se decidia com relação ao lugar mais adequado para suas mãos trêmulas: ora enfiava-as nos bolsos, ora deixava-as à mostra, numa indecisão quase cômica. Não obstante, tinha o olhar fixo.