Monthly Archives: June 2012

Dos aviões, da prata e do passado

Com orgulho, erguida a sensação de se pensar além do rio turvo das águas passadas, ele imaginava ser a hora prometida. Livrou-se de alguns alfinetes de emoções que ainda lhe restavam e armou-se com uma empreitada decisiva: um último olhar, um último adeus.

Como em todas as despedidas, mesmo as que trazem alívio imediato, estavam ali a postos vários soldados invisíveis, sussurrando arrependimentos e profecias que serviam como ganchos a rasgar sua pele inquieta. Não era um obstáculo: havia pele de sobra pra se romper. Tanto tempo dedicado à cura de trivialidades, tanto ócio mascarado de luto… havia uma crosta de intenções escondidas que haveriam de servir de apoio.

Seguia então o enfermo do tempo perdido a provocar desordem no presente acomodado. Cessavam as horas a observar fantasmas partirem em seus próprios aviões amassados, a invejar casais de almas singulares em harmonia absurdamente calma, a apanhar dos velhos rostos debochados que o deixavam para trás…

“Vai, vento úmido do meu pranto,

volta ao passado e diz àquele marginal

que a vida colorida é insensatez feita de pano

e que nada finda a pira que dela se encarrega.

Grite, faça cena, use os punhos e o ferro se puder

mas mostre a ele aquela ruela suja e suspeita

que leva pra longe da esfera da dor secular.”

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