Monthly Archives: August 2012

Se palhaços morrem de asfixia…

Pra quê transferir confiança aos músculos frágeis, se tenho pernas hábeis pra fugir? Se a mente me nega o que o peito arfando reivindica, recolher cada gota de humanidade e lançar tudo no vão que me corrói seria o mais prudente. Esses estímulos tolos que fazem com que cada segundo de euforia invertida seja um suplício, um congestionamento tóxico do próprio fato da existência nessa terra! ah, eles são os culpados, são os delatores de minhas fraquezas, os carrascos de minha sanidade! Eu hei de os delegar aos cães da sapiência para que sejam trincados, partidos, devorados, para que sumam daqui, para que voltem ao inferno de onde surgiram! Só assim, no pós-dilúvio, surgirá minha paz de espírito! Ainda que tardia! ainda que momentânea!

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E eles não se contentam de alegria!

A verdade, universal e indiscutível, é que aquele que leva a vitória consigo é aquele que vive o bastante para contar a fábula do tempo do jeito que bem entender.

Prolifera o que se escuta, independentemente do fato consumado, testemunhado ou confirmado. Nada existe na memória além do que se sabe, e é o evasivo contador de histórias quem decide o que todos devem saber. Estamos à mercê da tinta que menos se desgastar, ou do ímpeto de uma legião de potoqueiros. Nada existirá além do que será recontado.

In the end, I win everytime as ink remains

– Death Cab For Cutie

Hall da cena

Ela entrava pela janela e em um passo lento, cansado e embriagado subia as escadas da minha sinceridade.

Todas as paredes se afastavam e todos os corredores se alongavam perante a passeata calma, salobre e discreta.

Eu era um pincel que chorava imagens de encantamento e ponderação.

Ela conquistara o direito de ser o prefácio da explosão de argumentos gráficos e físicos que a brisa trazia, de dentro da clausura daquele peito insaciado.

Ela já não esbanjava doçura, como todas as outras formas de delírio. Ah, não, esse era um ser de águas e ondas, uma serpente ou sanguessuga que se fazia grilhões e algemas com pura, simples e clara palavra.

Ela era assim. Invadia a casa que, fria sem ela, tinha como traça e mazela o cão antropomórfico que o tédio e a melancolia transformaram em pensante, regurgitando pelas paredes a cor de suas desventuras, se atirando no júbilo das súplicas que me atormentavam.

A liberdade com que deslizava pelo chão e pela pele que me aprisiona; o giro de seu corpo pelo ar que me envenena; o espasmo que me incitava com sibilos e suspiros a vontade de deixar a Terra canina!

Ela era o som que saía de um coração fraco e valente, que rente a uma essência insípida se posta algoz e justiceiro, ao assumir uma voz contrária de indolência e sobriedade.

Por vezes, a noite nos engolia, devorados e compactados em um único ser furioso e sedento de mais discussão enfática.

E os cômodos se enchiam de grunhidos, interjeições fervorosas, vozes trêmulas, gemidos incompreensíveis e as odes prepotentes compostas por quem se torpe com o outro.

Ali, seus dentes rasgavam meu ferro, seu sopro explicava meu medo, seus dedos me tinham escravo e seus olhos me deportavam, incertos. E tudo era ela.

E sim! Era o mesmo que esculpir em mármore as palavras mais vadias. Tê-la impressa nas cores, nas folhas e fotografias… era sentir açoites ao longo do dia.

Resta o quarto, a sala. Resta a casa. Restam as torturas, os projéteis, as chibatas do pensamento. Marcas da cena que, hoje obscena, me induz ao estado de semi-demência, perder paciência e a crença de que há ainda algo a crer. Algo a vir. Algo assim, a mister.

O Declínio

Temer o desfalecer da carne viva:

É dor que se faz morte nos descrentes.

Ver nos sorrisos a façanha dos atrozes:

É dor que encarcera os perspicazes.

Ter-se banhado por cálculos e fios:

É dor que exila a alma dos poetas.

Fitar pungido o desejo mais ardente:

É dor que atormenta os vaidosos.

Tentar inábil a busca pelo mérito:

É dor que se aloja nos mais fracos.

Perder a fé no que atua persistente:

É dor que interfere nos eufóricos.

Há, no entanto, um porém que se apresenta

Como ultimato para aquele que padece.

A dor difusa, que fere e se propaga;

A dor profunda, que dói e invalida;

A dor terrena, à qual nada embarga:

É dor que se alimenta da esperança

De quem se perde e ainda dela ousa!

É dor que rasga a quem vê no espelho

O fracasso de alguém que desconhece.

Carolina (II)

As credenciais, meu amor,  são seus olhos

que em aurora rompem a noite escura.

Vitrais castanhos, bênção ao anjo que os guarda;

tão áureos, revelam sua magia ao olhar.

.

Simples é o planeta diante desses olhos!

Do abismo de meu estado ao contemplá-la,

transito a euforia e entusiasmo em segundos.

.

Sinto mesclar-se espanto e encantamento

nos passos meus que unem-se ao seu dançar

e nos versos meus que almejam te alcançar.

.

Na bela  melodia que então se forma,

os lábios meus se perdem na harmonia

que, junto aos teus, entoam em simetria.

.

Meu destino se entrelaça ao seu, amor,

a cada dia que aproveito ao seu lado.

E isto vou demonstrar-lhe, sem demora:

o que é esse sentimento não falado.

Carolina (I)

As credenciais de seu amor são seus olhos;

tão lindos como o turvar da aurora, rompendo a noite escura.

São vitrais castanhos, dádivas ao anjo que as possui;

tão áureos, transparecendo tal magnitude a quem os contempla.

 

Ao observar-te, percebi o quão simples é o planeta diante desses olhos.

Do abismo em que me encontrava ante observar tão bela figura,

a euforia e entusiasmo transito em questão de segundos.

 

Sinto uma mescla de espanto e encantamento saturarem meu coração

a cada passo meu que copia o seu dançar

e a cada verso meu que procura te alcançar.

 

Na intensa melodia que então se forma,

meus lábios se perdem, tão inalcançável é essa sinfonia,

que sem os seus é carente de harmonia.

 

Sinto meu destino se entrelaçar ao seu

a cada segundo que passo ao seu lado.

Deixe-me, então, demonstrar-lhe

o que é esse sentimento não falado.