Monthly Archives: September 2012

Acostuma-se, eventualmente

“Não” é uma sensação dura, um baque gélido em forma de palavra.

É inconsolável ter que dizer, mas é o tudo que existe pra rechear essa distância. Mais triste ainda é constatar que nos acostumamos a nos sentir como que desalmados, pesares taciturnos, testas enrugadas, olhares difringentes… se hoje nos associam à “raça da pedra dura”, é porque assim deixamos nos conduzir a vida queixosa que nos carrega mundo adentro.

Consequências ligeiras na travessia do coração bem treinado, mas que cobram seu soldo, sua chibata, sua continência. E ficam, escondidas, enraizadas, ensurdecidas, sugando o máximo de cada sentimentozinho que se ache capaz de enfrentá-las.

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Adeus à amiga

Redigi um monólogo para impressionar a senhorinha, que nada dizia.

O que ela fez foi me fitar num compacto de ciso e temor,

Sem deixar de pautar o desejo alucinado de vingança, a avareza, o rancor…

É inglório, encontrá-la no meio do caminho, como um troféu perdido, daqueles que te chamam atenção quando de repente o dourado na prateleira toma vida, reavivando consigo a lembrança da perseverança que se alojara no seu todo, na busca daquele objeto há muito esquecido.

Foi sísmico, tremendo, sensacional, para mim. Ela ainda era tudo aquilo com o que eu me divertira. Era ainda tudo o que eu desmoronara, reduzira a nada.

Ela havia sido de um Tudo indefinido: papeis avulsos e  amontoados, com a possibilidade de uma descoberta valiosa. Mas só, só possibilidade. Até sempre. Até eu a arremessar sobre as sacas de lixo, que a bem receberam. Ali, patética e cômica.

Ah, excesso de brio me guiara. E agora, a mesma circunspecção avantajada me fazia empinar o guarda-chuva. Era adeus, era para nunca mais.

Lá vem a cavalaria

Carregam taças, cavalgam sobre ânimos, exalam colônias, esbanjam sorrisos, se vestem à fidalga… meus parabéns! você acaba de conhecê-los: a cavalaria lânguida da noite, os templários ébrios, renovando e expandindo as sensações que nos prendem em micromundos sem diversão. Chegou a hora de se libertar de qualquer sentido flácido, de qualquer proeza crítica, de qualquer traço nobre de humanidade.

Animais, então, parte da natureza seletiva e preconceituosa que domina a todos, dançaremos ao som da batida anormalmente acelerada de cada coração! Ah, corações livres da tirania conspiratória desse sistema (posso até sentir o arrepio desdenhoso de cada um dos presentes): o sistema nervoso! (urra! Aplausos, eletricidade, vibração!) Abaixo com o ditador que nos impôs a evolução à qual não pedimos! Após tanta luta, tanta guerra contra esse inimigo cruel, após todas as tentativas quase diárias de extirpá-lo dos nossos organismos tão sofridos, tão frágeis, nós ganhamos o presente maior: vitória, compatriotas!

Venceremos, com a ajuda dos alquimistas cavaleiros! Trazendo-nos suas letrinhas milagrosas, sua lábia incontinente, suas cápsulas e líquidos e vegetais inofensivos, como prova final de que estaremos livres, felizes, unidos e em uníssono com o planeta GARGALHADA! Doce, doce, doce gargalhada sem fim! Até que sangrem as traqueias infelizes, até que murchem os pulmões enegrecidos, até que se forme um grande nada, um grande espírito de desolação e invalidez entre todos os indivíduos sobreviventes da espécie que subjugou tão ignobilmente todas as outras. Culpa do sistema! Eliminemos o sistema! Sejamos livres como porcos e alegres como ratos!

Solerte ideia evasiva

Mascarada, circunspecta, corcovada de desconfiar

Ela manca, ela sibila, ela conspira, ela mirra

Fugindo da luz, crendo-se nua, pálida de cismar

.

E assim enferma, mesmo, a disputa se acirra

Entre a garganta ávida e a tola velha insolente,

Que se vê escorrendo nos poros de cada gargalhada.

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À massa de ditos, a crista de insultos que nada sente

Resta a luta, resta a gana, secretos na empreitada.

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Ela consome-se a cada segundo em que se faz oculta

Ela desvale-se, e a cada filho seu só se sepulta.

“Le sens d’écrit”

Como há de se tornar profano o que almeja ser benquisto,

quem da neutralidade no silêncio vê-se farto,

há de mourejar, eterno; e há de definhar, enfermo!

E se se perpetuar em papéis, telas ou vozes,

por prosseguir com braço em riste à cônjuge cegueira,

é certo que será solitário o conjunto de seus espólios.

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Diria o sábio, no caso de um adágio de máxima destreza,

que, se não funesto, seria um modo de findar tal fado

talhar livre de remorso os cifrões amaldiçoados

de que se munem a ira, o júbilo e a escravidão;

Pautando-se, pois, na direção dos próprios cílios,

é que seria escrita livremente a vida poetiza.

Romantismo realista

Febril, um mártir atirava-se do último andar de um prédio comercial no centro da cidade, acompanhado por uma armada câmeras, olhares e gritos, dizendo o nome da amada que o deixara, ao dançar em conjunto com a gravidade. No instante em que o homem beijava o concreto e após a formação subsequente de uma enorme poça de sangue, ossos e vísceras que divertia os telespectadores, a homenageada se deixava lamber por outro, com a TV desligada e a consciência pura como um mar de algodão.

Na zona sul, ignorante ao suicídio comercializado, uma moça tentava se levantar com dificuldade após uma saraivada de murros e ganchos do homem mais a amava no mundo: ela cumprimentara um amigo de colégio, do outro lado da rua, de “modo suspeito”.

Daí a poucos minutos, na mesma cidade, via-se entrando pela escadaria de um edifício residencial qualquer um homem, finamente vestido, que se dirigia à casa da mulher amada, para o encontro ansiado durante todos os segundos do mês que passara no exterior, cumprindo os deveres do novo cargo ao qual fora promovido. Ah, mas que cena quem   o observasse daí a cinco minutos encontraria: a esposa nua, um sujeito sem nome ao seu lado, e o pobre coitado escutando justificativas arrogantes e prepotentes da mulher que em dez minutos cessaria sua atividade cardíaca.

E para finalizar os exemplos, temos a algumas quadras dali, na praça esportiva de um bairro de classe média, um casal de namorados, sentados à sombra da única árvore que ainda vivia ali. O franzino garoto mostrava à donzela uma cartinha que escrevera para ela. Esta, descuidada, não pôde conter a gargalhada. O outro, sentindo-se obviamente envergonhado, tratou de entregar o outro presente que trouxera a ela: o caríssimo colar de pérolas. A partir daí, foram só os beijos apaixonados.

Eu exagero bastante, decerto, mas o mundo não é mais o mesmo. Estamos pervertidos, pernósticos, idiotas, cegos, traidores! Retornamos ao estado animal dos nossos viris antepassados. O amor morreu, a honestidade é piada, a estupidez é o melhor caminho para a aceitação coletiva de nossos brutos colegas. É a era da insensatez voluntária, amigos. Vejo cada vez mais pessoas de bom coração que perderam a fé e a vontade de tentar espalhar o bom da vida. É, os bons são hoje desconfiados de olhos mortos, são pessimistas que, com toda a razão, escondem o seu lado honesto e propício ao respeito e à dignidade com o objetivo de, pelo menos, conservar seus atributos à sua família. O amor é coisa rara, minha gente!

A Luz quis que um anjo iluminasse o mundo

Quando nasceu Carolina,

Em sua alma surgiram a Luz e o Espelho.

Mas já não havia foco;

Havia somente o mundo inteiro.

Profecia aos corsários

Digo, solene, palavras plenas arrecadadas da própria Terra e sua Memória de todos os filhos, de todas as carnes, de todos os pecados e de todos os domínios.

Lê-se que será, como sempre o fora,

Convulso o fim dos sôfregos corsários

No pranto cadenciado da mãe Terra.

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Acro é o beijo que desperta o afanar

De substância no vazio de cada alma:

Sóbrio espelho, a cuspir crua a finitude!

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Desvalida, no temor ao fogo fátuo,

Se principia uma altercada ilusória

Rumo à bonança, rumo ao prisma vencedor.

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Aureolada, a ganância cinge o ócio

Quando abocanha e devora lasciva

À intermitência sazonal da esperança.

.

Pois se insurgem-se ao fausto os locatários

Do abrigo destro, repulso à insensatez,

Eis que sorri, recôndita, a vida eterna!

Sobre imposições, desvios e as alegações de insanidade

Num prédio de sei lá quantos andares, num dos vários apartamentos idênticos, deitado na cama de um quarto igual a todos os outros, ele contempla em si mesmo sinais de loucura.

“Tem algo errado, só pode! Essa escassez de insatisfação, essa tola paz interna, essa falta de inveja, de nojo, de pânico! Não é justo que eu venha a me sentir tão deslocado. Por que, ó meu Deus, não sinto eu vontades de justiceiro? Por que não consigo ver motivos para a minha superioridade? Ausência de repugnância ao sorriso alheio, onde já se viu! Que coisa mais estranha, mais louca… e como posso eu mostrar meus dentes assim, de forma tão indecente e insensível? Estou enlouquecendo. É isso. Um alienado idiota, digno de um lugar no hospício! Felicidade, em um mundo desses… realmente, uma irresponsabilidade!”

É claro, a situação do pobre homem que não internalizara a desconfiança e o ódio pré-concebido, virtudes tão vitais para a sobrevivência nesse globo, sem falar na decência, em cuja essência se faz imprescindível, era bem pior do que ele imaginava. O infortunado morreria de fome, de certo.