Monthly Archives: October 2012

A dona da névoa

Chiste minucioso, a faroleira dos fogos-fátuos
Despejava caldeirões de lábios borbulhantes
Clamavam as rugas matutinas do seu rosto
Por mais daquelas ondas irrisórias de inocência,
Mais daquele excitado fulgor, cadente de vitória.
A perversa enguia em águas turvas,
De prolixas viagens ao centro das almas…
(almas masculinas que choram o nada que são)

Ela se aprumava e se coloria, fazia-se cândida,
Medida e codificada, como o passeio de um projétil triste,
Embora vingativa e suplicada.

É, a brincadeira de dar aos olhos de outrem o invisível
E cobrar adiante a fiança violentamente…
Obra dela, meu amigo, é preciso ter cuidado!
Ouça o que digo, ouça o que digo…

Na marina dos memoriais

O que é o “seguir em frente”? Já pararam pra pensar?

Interrompida a vida num relance, às custas de algum distúrbio físico qualquer, desfeita a máquina perfeita de carne, e o ente amado que se caracteriza por ser uma fronha enrolada dentro de um crânio deixa de ser algo tocável, alcançável, desejável, e passa a ser apenas informação contida na memória de outros vários “alguéns”. Isso, o objeto amado, a fissura, a paciência, a trêmula carícia, a ansiedade, as sensações do primeiro ao milésimo beijo, as mãos, os olhos, tudo ali, tudo simples. Tudo nada, desfeito, como um botão eletrônico tão simples que esconde a imensidão de cálculos e subserviências que carrega em sua história, num feixe de luz. Já imaginou?

E as conversas de desvairadas, noites ébrias, manhãs de preguiça solta, livre, os gritos de raiva e de tensão, com aquelas veias de têmpora demonstrando o perigo da explosão daquele reator nuclear de inconsistência… agora, tudo é arquivado. Arquivo morto. Agora, é seguir em frente, como todos aqueles parentes inconvenientes e auto-suficientes insistem em dizer ao padecente durante o velório da terça parte da sua vida… da terça parte vital da sua vida…

Pensei nisso. Pensei no que seria ter que viver somente pelo medo de que Deus não exista, de que não haja nem o reencontro e nem a memória dos encontros quanto o fim vier. Pelo menos na vida, ainda que torturante e quase-insuportável, a memória daquele rosto existe, não é? Respirar piedade, exalar cansaço, engolir tédio, excretar um pranto debilitante, feio, maçante, mais e muito mais que triste. Nada comovente, que só incomoda, deixa a quem presencia inquieto e perturbado… sofrer assim é mais do que se pensa. É mais que o dinheiro, mais que a desilusão amorosa, mais que a inveja estúpida que nos injetam constantemente… viver assim é ser o pássaro na gaiola, o porco no matadouro, o escravo da loja de sapatos que não tem família, o animal em que se testam os remédios. É viver morrendo de um câncer que nem ao gracejo de matar o enfermo se presta. É a vida de um quadriplégico que, lúcido, se vê inválido e lamenta sozinho os seus quarenta anos restantes de laceração contínua.

Horrível, funesto, indigno, macabro, por aí. Eu pensei nisso. Não gostei, fiquei com medo, e então fui ler Vinicius.

Estar aqui, viver aqui

Veio a cinza do papel queimado e me sorriu despreocupada

“Eu já não mais existo, mas o que eu dizia ainda irá atormentar o seu sono. O alívio foi meu, de nunca mais me molhar debaixo das suas fungadas melodramáticas!”, debochava o amontoado de sujeira.

E eu olhei, incrédulo, a humilhação que era aquilo:

Desfalcado, devassado, derrotado, despojado

E por quem? Por um cadáver de dois anos de idade e a alucinação de um papel falante! Bazófia? Ai de mim!

O que você deve notar enquanto lê este poema

Você tem que pensar que esse poema não tem rima

E que, de forma alguma, está ele por cima

De uma mensagem maior, nobre e obscura.

Você não precisa compreender o que o poeta procura,

Perceba apenas a semântica que tende o seu tom a construir.

Veja nele a sintonia de quem já não precisa se instruir

Para orar aos vadios andarilhos sobre o que o faz poeta.

Observe que os versos se dispõem como uma seta

Que ruma translúcida ao cerne do lirismo.

Olhe, sinta, ouça, e não se preocupe com o sincretismo:

Para ler um poema como esse, não há nada mais sensato

Que imbuir-se de fé e de indução, e de fato

Arrancar de cada sílaba plácida um sorriso diferente

Como que soletrando ali a felicidade eferente.

A próxima vez

Olhos derretidos, a vida ainda rala
(“Te lembras do que dizia sobre quem se cala?”)
Seu porte nobre erguido para o mais um ato
(“Já é hora de solver o que diz o insensato”)
Para o fundo do poço, a ponta do nariz
(“Talvez agora entendas tudo o que eu fiz”)
As contas gastas antecipavam seu vão acerto
(“Será a última nota do teu concerto!”)