Monthly Archives: April 2013

Cerveja

Tu, que das belas damas que me subornaram com carícias,

És a única que de mim nunca se separara;

Tu, que desde as horas de pupila dilatada

Às das tardes mais úmidas e ensolaradas

Foste a icônica perpétua companheira,

A única a não se olvidar de quaisquer fados

Ou a desiludir meu êxtase diário;

Tu, que tua forma arrebatadora,

tua beleza impressionante

E teu encanto mágico

Nunca, desde que nos conhecemos,

Abandonaste por sequer momento;

Tu és a coisa única a que me atrevo, em audácia ou astúcia

A denominar carinhosamente:

Panaceia.

Advertisements

Conluio da luz

Eis que o vencia a imagem distorcida do limiar dos dias mais reclusos, tomando-lhe a palavra, galgando cada flerte conotado da voz não-tonalizada com a simplicidade de uma brisa estéril. Imagem tal que a corriqueira independência encefálica não conseguiu alimentar esperanças de barrar suficientes feixes de luz para negá-la de qualquer maneira, se entregando, talvez consternada, à recorrência do estado ignóbil do desconhecimento.

E qual canção não soou mais ameaçadora, ou qual caminhada não se transformou em paranoia? Se a paz alheia o dominava, se o desejo férreo o abandonava suave e constantemente, a cada gota de ternura que deixava derramar…

Seria injustiça o despojo do guerrilheiro de tantos anos de história? Ou seria simplesmente o vértice último de seu merecimento, de sua contribuição à arte da penúria? Levá-lo, assim sem qualquer explicação, rumo à serenidade, à pacificadora cegueira dos veteranos desiludidos, como se não houvesse dentro daquele coração qualquer resquício de perseverança…

À santa das horas vagas

Por que você não se alimenta do cárcere de sua evolução mal-sucedida? Aprender com sua imbecilidade, não se acomodar ao ser patético, cômico, irônico na própria locomoção bípede(esse seu mais absoluto dos méritos) que é você em toda a sua glória. Seria uma boa ideia de ocupação para essa massa desperdiçada de carne, essa tentativa fracassada de ser gente, essa poluição intelectual que suja o nome dos homens. Eu realmente queria poder dizer que é comovente e inspirador ter esse organismo digno de pena contido no meu campo de visão, mas não há nada mais jocoso que explorar a ideia de que alguém como você possa ser incluído em nossa espécie.

Apoteose covalente

Se ouves um suspiro de piedade

Na certeza do fruto prepóstero de alguém semisistêmico,

É porque conjugo uma sentença diferente a cada ponto cardeal,

Me dispondo em oito faces subalternas à valência que prodigo.

Eu, que na coalizão me dispus uniformemente à busca da anarquia,

Não simplifico rosas, nem faço mundanas restrições quaisquer se pró-bióticas,

Meramente improviso, com a mesma previsibilidade reticente,

A tradução dos ecos de trinta e um de Outubro.

Corroboro

Quisera eu desvincular lembranças da falha câmera que grava a minha vida, talvez teria diante de mim uma obra-prima de vivência, uma exemplo de perfeição incontestável, em vez de imagens cada vez mais oblíquas e opacas.

Mas acontece que eu sou poeta, e não cabe a mim organizar meu pensamento. Falo de uma força extrahumana, de um impulso incontrolável que me traduz mais sabiamente que qualquer oratória. É o que me domina ao desenhar letrinhas, ao saborear no paladar diário algumas palavras comumente. É o que vive em mim e vai viver em quem se apresentar nessa mísera epopeia.

Bruna

I

Eu fui um silêncio assoprado pela musa de lábios vermelho-sangue.

Eu me vesti de espera enquanto os seus gestos soturnos me ensinavam a violação

E sua boca vampira me paralisava em banhos de saliva doce.

Eu segui obediente o feitiço dos fogos-fátuos, guiado pela rosa pálida que era Bruna;

Em passo tal que me deparei, tão cedo demais, com a companhia dos anos que tecera a nossa penumbra.

.

II

Rica penumbra de linhas;

rica pauta de fibras;

rica sutura que afaga.

Fausto legado, crivado;

prudente novela de ouvidos;

decente camada de paz.

.

III

Eu guardo, Bruna, o desejo indelével da porta da casa tua,

De que ressurja das cinzas alguém de fogo, de raiva, vingança,

E me beije com sua língua em brasa, com seu hálito de plasma,

E me cubra com sua mortalha suja de hemolinfa,

E me puxe para o fundo temerário de sua cascata em escarlate.

A ti bendigo, viúva negra, anfitriã de ocasos,

A mais tênue esperança já descrita em versos,

A mais plácida flâmula de que se tem notícia:

Uma prece que crê na untura dos olhares afetivos,

Uma lira que nasceu nos teus mordazes aforismos,

Uma vida descendente do som da alma tua, enrijecida,

E que se preza no memorial das coisas tuas, arrefecidas.

Os sete mil amores

Eu só pensei, quando boiei na água translúcida,

que a menina me acompanhava no assovio

e distendia do brio o meu riso destilado.

Ao invés disso, você poderia…

O invés chegou com um tapinha paternal no ombro e me disse com um sorriso domingueiro: “agora é a minha vez”.

Como era de se esperar, eu me desvencilhei presto daquele gesto sem sentido e o confrontei com a parte mais divertida de mim, o sarcasmo.

“Meu querido amigo, meu correspondente psicológico, meu amontoado de folhas A4, será que você não entendeu até agora? Ao invés de você, existe um eu que se dá muito bem com qualquer coisa de impulso, de euforia, de perplexidade. Existe um folclore pretérito que mistifica a mim mesmo e me complica ao ponto de me forçar a reconstruir minha psique na diária inconveniência da vida. Pra quê seguir você e seu comodismo, seu chavão ordinário de blockbuster americano? Nada disso. Temos de tudo o que precisamos bem aqui nessa cidade, e eu me incluo nessa primeira pessoa do plural com tanto orgulho como posso conter nos meus sorrisos cotidianos. Eu sou um fabricante de vivências, e não um mero monge copista. Pense bem, olhe bem, veja bem a quem se refere quando surge o meu nome no discurso: estou além de você e de suas soluções mesquinhas, de sua ajuda sem consciência das palavras meras, chulas, tolas que ordenha com sua lábia assalariada. Tire suas mãos de mim, evapore para outro lugar, distante do meu campo de vista, e volte a ver novela.”

Pobre amigo! Pobre invés que se sentiu ofendido com a própria falta de originalidade, atirada com jocosa violência à sua cara de espanto! Qual acidificação não se propôs à saliva que eu cuspi com tanto gosto?

As the nucleus takes its time

“A reação normal é resultante de várias forças elétricas de repulsão.”

.

The joke could be on you, but it would take too much of both our unexpendable lifetimes to try and comprehend the meaning of this. As an embodiment of (t)reason, I decline as a last effort the impulsiveness of putting my flesh in harm’s way. Safer for me and whoever else that’s as deep-in-their-cups as I consider myself to be. That is the one and only thing that needs mouth acting to be said, and thus it is the very (t)reason for this waste of both our retinas.

Dom José Gaspar (II)

Me impulsione, corredor de incêndio,
E me ponha a par das várias vidas que aqui modorram
Me cure, espada seminua de crenças infantilizadas,
E faça renascer em mim a calmaria hominídea à qual me acostumara
Me abra, fila de flores sem perfume,
E me torne mais homem, mais incólume, mais sensato
Me beije, brisa da estrada retomada,
E me ensine novamente o que é caminhar de cabeça erguida.