Monthly Archives: May 2013

O ocaso de Bella Crawford

Talvez aquele lugar fosse o corredor de um hospital do centro da cidade(suas mãos se tocaram pela primeira vez naquele início de Fevereiro, durante uma aula inaugural de Física, e alguma faísca surgira e nunca mais se dissipara. Ele viu o âmbar ali, e sua vida se tingiu para sempre de âmbar, sendo o âmbar o que usaria durante o resto de sua existência para comparar o belo e o mundano)

Talvez houvessem à sua volta muitas pessoas sentadas, uma senhora negra, um homem extremamente magro e sujo, uma mulher feia, duas mulheres feias, algumas crianças de vários tipos, várias cores, várias – (ela e sua voz que mitigava suas angústias de adolescente, ela e seus olhos extremamente castanhos que o acompanhavam onde que quer que houvessem olhos para serem vistos. Ela e seu sorriso, sorriso esse que era uma transparecência lírica de todas as instâncias e possibilidades que o corpo humano podia exalar-ela sorria com os olhos, com o andar, com a dança, com o toque, com sua paciência infinita, com sua feminilidade maternal de menina pura, com seu riso nada menos que divino, angélico, titanicamente gracioso)

Talvez houvesse à sua frente um homem vestido de branco, com o olhar grave e cansado de quem já dera a mesma notícia inúmeras vezes e que agora calculava com seu senso de ética quanto tempo era necessário permanecer ali, calado, educadamente em silêncio, até poder se retirar e sentir o alívio de não ser aquele ser humano que fitava em condolência(os dois na livraria, ansiosos e tímidos, enormemente felizes, com olhos brilhantes e esperanças indizíveis a transbordar por cada um de seus poros e a dançar alegremente à sua volta enquanto um primeiro beijo-trêmulo, úmido e levemente adocicado-iluminava todas as almas a um quilômetro de distância com sua pureza, sua invencibilidade infantil)

Talvez ele estivesse sozinho em meio àquela gente. Talvez sua cabeça girasse, seus pés se perdessem, sua respiração se exaltasse e um pânico, um desespero irracional e pensado meticulosamente se enraizasse nas entranhas do seu ser(a vida era tão bela ao lado daquela mulher de luz que ele tinha a sensação de que roubara a felicidade do mundo inteiro para si. Cada último dia do mês, cada verso, cada parágrafo, cada noite de estrelas e de sombras acolchoadas ao lado da mulher de luz e de vida, talvez a vida mais cheia de gratidão que produzira o cio da terra)

Ele não conseguia mais pensar em palavras quaisquer. Eram várias as linhas de pensamento imagético que surfavam em sua mente, que deslizavam impunemente por sua sanidade, nocauteando-a com uma facilidade inevitável. Talvez tudo aquilo fosse realmente verdade e seu mundo chegara a um fim abrupto e seco, ele não sabia. Na verdade, naquele momento não existia tempo, não existia espaço, só existiam aquelas imagens da mulher dos olhos castanhos que rodopiavam e se depositavam em todas as direções e sentidos

(“dança, só essa música, só essa vez! Eu sei que você dança mal, mas eu só quero alguém pra me fazer companhia. Eu tento te ensinar de novo!”)

(Ela pedira pra ele esperá-la no quarto, sem se mover. Ele não resistiu e foi observar pela porta entreaberta a moça se despindo. Ele a surpreendeu quando ela entrou no quarto. Seu rosto, uma cor como uma manhã de inverno, vermelho, rosado, belíssimo, puríssimo, a face do céu)

(Seus olhos castanhos na primeira manhã o acordaram. Era impossível que existisse fora daquele lugar beleza maior que a daquele segundo, daquele rosto, daquele âmbar, âmbar, âmbar…)

(“estranho seria se eu não me apaixonasse por você” -ele nunca escutara essa canção, mas era o melhor que se podia dizer, sem que sua autenticidade excêntrica o fizesse puxá-la para dentro de seus próprios versos quase incompreensíveis)

(“as credenciais”…)

(“Milton, é? Eu gosto de Milton…”)

(“A história do casal do Titanic não é real?! Não acredito!!”)

(dois aneis de prata e um só, um só sorriso que englobava a Terra. Surpresa?)

(o rosto branco)

(um choro sofrido, a palidez)

(Mais de cem mil abraços, mais de dez mil beijos, quantas noites?)

Disseram que era a morte

mas ainda ele não compreendia como era possível que a própria vida morresse sem que tudo ruísse.

Tudo ruíra.

.

Eu nunca compreendi a razão pela qual dizemos adeus. Acho que todas as situações em que um adeus é necessário compreendem também uma vontade irresistível, uma antecipação terrível de saudade, de dor, de chaga. Prefiro que a memória seja a única a coagular essas mazelas, a levar o pranto embora, sem fatalidade, sem nada. A morte já é maior sentença para quem vive que  para os pobres-talvez afortunados, quem dirá?-que desaparecem e voltam a alimentar a Terra com sua essência, sua alma…pra quê acimentar essa pungência com um adeus e um coração estilhaçado pela última perda?

Boa ventura

Meu amigo surgiu da minha própria inconsciência,

Se depositou involuntariamente como um alicerce

E se transformou, também sem se notar,

Na cura mais profunda, na paz mais duradoura.

Ele me ensinou a calma e caminhou ao meu lado

E à direita continua, leal e sinceramente.

Nós partimos em busca de todas as mulheres,

Encontramos a Panaceia sem nos ater ao desvario

E mergulhamos irreversivelmente no lirismo de Orfeu.

Salve, irmão! não nos esqueçamos disto:

Somos duas vertentes da mesma essência

Dois viandantes perscrutados pela música

Dois exemplos de parentesco voluntário!

Pois afinal de contas, meu querido amigo,

P = F/A.

Canção belo-horizontina

Vago inconsciente.

Trago o peito quente,

Batucando num quê de samba cardíaco

O meu código de conduta.

.

Vivo intensamente.

Amo desesperadamente

Os olhos e os perfumes de todas as mulheres

Por quem vivo em disputa.

.

Bebo compulsivamente.

E sorrio exegeticamente

Com meus amigos de Belo Horizonte, convalescentes

Na penosa e urbana labuta.

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Escrevo diariamente.

E veem-se sutilmente

Representadas as moças, as belas moças mineiras,

Às quais censo nenhum computa.

.

Desejo enfaticamente.

E me rio de ver, inocente,

A mesma malícia, a mesma falácia replicada

Que toda mulher refuta.

O fogo de Heráclito

Dama minha do passado, paixão de etérea carnificina,

Eu te amo por ser imutável, por não ter credo nem sina

Eu te quero por ser sempre inerte, numa ampola sensível

E desejo-te como uma peste se faz logo divisível

Crê, alva, na ternura dos atos não obtidos

Mas esqueça-te que hoje os ponho em contos lidos

Mulher perfeita, mulher de outrora, cônjuge da sístole remota

Faço-te minha como a quero, faço-te nada como a amo

E amo-te novamente, sempre quite à minha cota

E sinto-te grave , quando assim vê que a clamo.

Pelas ruas da cidade

Eles não podem cantar porque têm a garganta seca e suja de escarro

Eles não podem sonhar porque vivem na rua(e os arranha-céus lhes tampam o horizonte)

Eles não falam de nada belo, porque beleza é, afinal,  afim à bonança

O mundo visto do chão é algo bastante diferente. Percebe-se que existem muito mais zonas sul, muito mais centros da cidade, muito mais tipos de pessoas que se dizem boas, muito mais coisas ruins.

Se o mar da rua é aberto, não há refúgio. É preciso se virar na selva, e é o que eles fazem. Sua malária me parece ser aquilo que é mais facilmente absorvido pelos capilares de seus alvéolos, aquela fumaça bonita e perversa que faz o mundo desistir de ser mau.

Seu filho tem medo deles. Seguindo os conselhos, os exemplos silenciosos que você dá todos os dias. E talvez você até perceba o que faz, antes de se lembrar que é dia de jogo, ou que é o capítulo final de mais uma telenovela de merda(porque vários outros já doaram seu tempo à desconstrução conceitual dessas formas patéticas-e extremamente eficientes-de manter a boca imbecil do povo ocupada com, bem, outra merda que não seja a que realmente os afeta, com a qual realmente há alguma valia em se gastar energia, não vou ficar aqui falando de coisas com as quais você finge que concorda).

Eles não aprenderam a pensar nisso. Acho que estavam ocupados a fugir de animais de fumaça preta, a aprender a viver na selva. Talvez, não ouso exibir se compreendo, isso não seja sua culpa.

Mas você? Seus filhos? Disso eu entendo, pois faço parte dessa caldeira de gente inutilizada pelo trabalho, infecunda pelo prazer que os é concedido. Qual será a diferença, então, como me indagam com incômoda frequência, entre eu e vocês? Eu digo:

Você lê minhas palavras, escuta a minha ira, e vê, efetivamente, nesse exato momento, em que estrada está a minha vida. Será que nela permaneço? Ou será que dela me pescam displicentemente, como a tantos outros de que ouvimos falar anos depois? Dito e feito, espero que não seja só o tempo quem diga.

Gravitação

Vá! Me deixe na tentativa de fabricar uma paz só minha!

Vá e não doure mais meus dias com sua sensatez insultante

Ela fere o meu orgulho,

me faz sentir meus erros a ferro e brasa

Casa-te com a fera que ocupa essa distância!

Fira-te com um estranho sem dilema, sem verdade, sem temor

Não fique, não te demores…

Ver-te me faz mugir em exegese!

Ter-te me faz padecer de catacrese!

Como será possível crer em tanta reticência?

Some-te daqui! Vá e colida com outra coisa cadente, estrela, e seja somente hélio e hidrogênio!

 

Conflito, pra quê?

Não é dilema a falta de eternidade do mundo, é simplesmente a verdade que, sem pedir para ser compreendida, passeia por cada uma das vênulas e arteríolas do seu corpo.

Não importa o que se faça para apascentá-las, não há vagas que deixem de quebrar na praia.

Para quem irrompe do solstício

Pobre é o homem mau, que só percebeu que a Lua o dominara quando a viu deitada ao seu lado, morta pelo prazer profano, iluminado pelos primeiros raios de Sol.

Uma estranha (qualquer)

Vi o relâmpago esquivar-se de seu destino chuvoso e ir doar ao verde nos olhos dela toda a sua energia elétrica.

Naquele instante, de um trauma veio a terna loucura da paixão. instantânea e irresistível, que como tal ergueu-se de cada ponto recluso de minha retina para me traduzir a mensagem daquela íris de moça.

Vi que os músculos de sua face se recolheram para que sua tez se abrisse em um sorriso como o meu, um sorriso tímido e repentino de quem se encanta com o arremate do olhar.

Que sede de tê-los não tive! Aqueles olhos verdes da menina que me fitava… vontade de vê-los em todas as próximas vezes, de procurá-los, quietos, nessa torrencial Cidade dos Vértices. Vontade de vivê-los, de ceder àquele poço de hera quantos litros de vida fosse necessário.

Quis arrancá-la do desconhecimento, mantê-la sob o cárcere dos meus olhares e aspirar todos os beijos de ar que aquele início de mulher me dedicava.

Como era bela a premissa dos olhos-vitrais… e como extático não foi o segundo em que a vi olhando para trás, se despedindo silenciosamente de mim com todo aquele verde em minha direção. Como não sonhei encontrá-la novamente, mergulhada em sua placidez frugal de menina!

“Outros outubros virão”

Saiba que a valsa, mesmo manchada de escárnio,

Ainda refrata o âmbar que conotava aquele idílio