O ocaso de Bella Crawford

Talvez aquele lugar fosse o corredor de um hospital do centro da cidade(suas mãos se tocaram pela primeira vez naquele início de Fevereiro, durante uma aula inaugural de Física, e alguma faísca surgira e nunca mais se dissipara. Ele viu o âmbar ali, e sua vida se tingiu para sempre de âmbar, sendo o âmbar o que usaria durante o resto de sua existência para comparar o belo e o mundano)

Talvez houvessem à sua volta muitas pessoas sentadas, uma senhora negra, um homem extremamente magro e sujo, uma mulher feia, duas mulheres feias, algumas crianças de vários tipos, várias cores, várias – (ela e sua voz que mitigava suas angústias de adolescente, ela e seus olhos extremamente castanhos que o acompanhavam onde que quer que houvessem olhos para serem vistos. Ela e seu sorriso, sorriso esse que era uma transparecência lírica de todas as instâncias e possibilidades que o corpo humano podia exalar-ela sorria com os olhos, com o andar, com a dança, com o toque, com sua paciência infinita, com sua feminilidade maternal de menina pura, com seu riso nada menos que divino, angélico, titanicamente gracioso)

Talvez houvesse à sua frente um homem vestido de branco, com o olhar grave e cansado de quem já dera a mesma notícia inúmeras vezes e que agora calculava com seu senso de ética quanto tempo era necessário permanecer ali, calado, educadamente em silêncio, até poder se retirar e sentir o alívio de não ser aquele ser humano que fitava em condolência(os dois na livraria, ansiosos e tímidos, enormemente felizes, com olhos brilhantes e esperanças indizíveis a transbordar por cada um de seus poros e a dançar alegremente à sua volta enquanto um primeiro beijo-trêmulo, úmido e levemente adocicado-iluminava todas as almas a um quilômetro de distância com sua pureza, sua invencibilidade infantil)

Talvez ele estivesse sozinho em meio àquela gente. Talvez sua cabeça girasse, seus pés se perdessem, sua respiração se exaltasse e um pânico, um desespero irracional e pensado meticulosamente se enraizasse nas entranhas do seu ser(a vida era tão bela ao lado daquela mulher de luz que ele tinha a sensação de que roubara a felicidade do mundo inteiro para si. Cada último dia do mês, cada verso, cada parágrafo, cada noite de estrelas e de sombras acolchoadas ao lado da mulher de luz e de vida, talvez a vida mais cheia de gratidão que produzira o cio da terra)

Ele não conseguia mais pensar em palavras quaisquer. Eram várias as linhas de pensamento imagético que surfavam em sua mente, que deslizavam impunemente por sua sanidade, nocauteando-a com uma facilidade inevitável. Talvez tudo aquilo fosse realmente verdade e seu mundo chegara a um fim abrupto e seco, ele não sabia. Na verdade, naquele momento não existia tempo, não existia espaço, só existiam aquelas imagens da mulher dos olhos castanhos que rodopiavam e se depositavam em todas as direções e sentidos

(“dança, só essa música, só essa vez! Eu sei que você dança mal, mas eu só quero alguém pra me fazer companhia. Eu tento te ensinar de novo!”)

(Ela pedira pra ele esperá-la no quarto, sem se mover. Ele não resistiu e foi observar pela porta entreaberta a moça se despindo. Ele a surpreendeu quando ela entrou no quarto. Seu rosto, uma cor como uma manhã de inverno, vermelho, rosado, belíssimo, puríssimo, a face do céu)

(Seus olhos castanhos na primeira manhã o acordaram. Era impossível que existisse fora daquele lugar beleza maior que a daquele segundo, daquele rosto, daquele âmbar, âmbar, âmbar…)

(“estranho seria se eu não me apaixonasse por você” -ele nunca escutara essa canção, mas era o melhor que se podia dizer, sem que sua autenticidade excêntrica o fizesse puxá-la para dentro de seus próprios versos quase incompreensíveis)

(“as credenciais”…)

(“Milton, é? Eu gosto de Milton…”)

(“A história do casal do Titanic não é real?! Não acredito!!”)

(dois aneis de prata e um só, um só sorriso que englobava a Terra. Surpresa?)

(o rosto branco)

(um choro sofrido, a palidez)

(Mais de cem mil abraços, mais de dez mil beijos, quantas noites?)

Disseram que era a morte

mas ainda ele não compreendia como era possível que a própria vida morresse sem que tudo ruísse.

Tudo ruíra.

.

Eu nunca compreendi a razão pela qual dizemos adeus. Acho que todas as situações em que um adeus é necessário compreendem também uma vontade irresistível, uma antecipação terrível de saudade, de dor, de chaga. Prefiro que a memória seja a única a coagular essas mazelas, a levar o pranto embora, sem fatalidade, sem nada. A morte já é maior sentença para quem vive que  para os pobres-talvez afortunados, quem dirá?-que desaparecem e voltam a alimentar a Terra com sua essência, sua alma…pra quê acimentar essa pungência com um adeus e um coração estilhaçado pela última perda?

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Posted on 27/05/2013, in Uncategorized. Bookmark the permalink. Leave a comment.

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