Monthly Archives: June 2013

“Horizonte perdido/no meio da selva nasceu o arraial”

Meu nome descansa sobre as ruas
Onde tranquilos descansam meus algozes.
Se em meu berço de terra
Aprendi a fremir de seu cio a presença do mal,
Eis que conhecer a coragem
Manter o corpo erguido e o flexionar cada músculo,
Armas e dentes semicerrados,
E lançar o coração ao chamado gritante da selva
Decerto valeram à récua dos bichos-homem
Ei-los aqui…
Meu nome se deita sobre as cabeças
De rotos simplórios que não quiseram ser
E só se puseram a ceder sob a romaria cáustica e irada
E como fosse o seu destino
Recuar contritos de volta ao seu conforto.
Meu nome dorme sobre as ruas da cidade.

Pós-florilégio

As palavras ruminadas me trouxeram uma célula de memória
Que eu resolvi guardar contra a sua vontade sob minha córnea.
Quando eu vi o assassinato da harmonia atmosférica
(o seu corpo se rastejando pelo espaço)
Percebi que de nada valera a volumetria de saliva, de lágrima, sudorese
Porque o niilismo invadira a casa da compreensão
Antes que os vermífugos que eu tomara pudessem surtir efeito.
Eu me tornei, então, extremamente circunspecto
E talvez assim ainda o seja.

An epitaph for a mermaid

May the ocean surround your ashes with grace
As it did your gracious body in life.
May your soul encase itself in peace
As it did with mine in every strife.
May your heart illuminate every face
As it did here, ever and everywhere.

Libertas

Vai, vento úmido do meu pranto,
Volta ao passado e diz àquele marginal
Que a vida colorida é insensatez feita de pano
E que nada finda a pira que dela se encarrega.
Grite, faça cena, use os punhos e o ferro se puder
Mas mostre a ele aquela ruela suja e suspeita
Que leva pra longe da esfera da dor secular.

Anseio por amnésia

Sentar-se no chão de qualquer lugar,
Esperar que alguém apareça trazendo barulho
Olhar para azulejos, ou cimento, ou tijolos, ou mato, ou areia;
Contentar-se com a lembrança de uma canção
“Bom dia universo”, “Como o machado”, “Ana Luiza”
“Denúncia vazia” não…
Pensar em cinema e lembrar que atrizes também são mulheres,
Depois tentar desviar o pensamento dessa rota perigosa
Porque ela leva a…
Fechar os olhos e cantarolar “Equatorial” ou “A via láctea”
Recitar mentalmente aqueles sonetos
Imaginar cenários, pessoas, ficção
Qualquer coisa, qualquer merda
Pra tentar desviar a mente da hera
Tudo, menos ela
Mesmo se não for possível.

Procrastinação

A afinação reincide sobre as almas
Como a água nos olhos da adúltera;
A prístina ambivalência dos cantos
Resvala sobre as cordas das fibras…
As vozes das víboras
A carne dos cordeiros
Os olhares das meninas
O assombro dos enleios
Os desfalque das rupturas
O Sol como forma de reclusão
A luz como falta de vida
O amor como falta de amar
A Lua como semblante de pesar

Ah, afinação contentora!

Esgar imaturo

Tira esse riso da boca, que ele nunca foi teu
Tira esse olhar do teu rosto, maldito gineceu
Tudo isso veio de mim, essa desviante injusta
Tira essa vida do mundo, que ela ainda me assusta
Tira esse cheiro do ar, que ele causa trejeito
Tira, corre, foge e galga esse ar rarefeito
Beija o tempo, diz adeus, sente orvalhar
Ah, volta… volta pro abismo, volta pro mar
Obsolescência tardia, peregrina!,
Deixa descansar minha retina…

O sonho luou

Se puder, quero que cesse tudo
Quero que olhe ao menos uma vez a fumaça do firmamento
Que veja através da inundação do negro as poucas estrelas
E perceba que é noite e que a vida está em todas as direções.
Se não for importuno, quero que pare
Que olhe o restinho de Lua que ainda resiste lá em cima
E perceba que essa Lua vaga vagueia solenemente
Atravessando o enxofre solto do céu.
Mesmo se não for capaz, quero que tente entender
Que o desconsolo dos homens na intentona divina
É, se nada mais, uma outra expressão lunar
Uma mais uma demonstração do belo da Lua
Ela, que vaga sem sair do lugar
Que foge sem tornar-se ausente
Que reaparece todas as tardes para apaziguar o desespero,
O mal de astrônomos,
O transbordamento de semântica