Monthly Archives: September 2013

Pensadouro (II)

O intento do desdém é simples.
Eu quero e não abro mão
Eu posso porque já vi muita coisa nessa vida.
Miríades de pessoas loucas, com falas loucas
E muito estupidamente ignorando que são récua, gado e matilha
Como convém aos meios de comunicação.
Por isso posso, quero e faço atribuir desprezo:
Porque vejo que compreendem a desumanização
Mas não se importam consigo
Zoomórficos, meus contemporâneos,
Será que a falta de acesso ainda te serve de desculpa?
Atentem! Atentem!

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Aos idiotas

Quatro ilusões simplistas:
A força da maré é intempérie
A causa da fé é vocação
A menção dos nomes é estéril
O amor dos homens é noção

Pensadouro (I)

Coração de pedra ou tumor de vento
Viola acordada ou sensação de sorriso e fluorese
Cara suja e menestrel injuriado
Corpo funcional e fascinação rotineira.

Eu falo e digo coisas
A maioria são só coisas
Mas cuidado com algumas delas:
Elas podem significar
Atente!

Variação de toxicidade em função do tempo

Parte I – Introdução
Pois, em um sol diminuto que fugia sem canções
Veio a dança e os suspiros da vida em luto
Atacar os bípedes sonoros da cidade opaca
Com a tempestade nublada da alegria.

Parte II – Velocidade
Conviver
Quero ver
Vamos lá.

Asa fechada
Riso risada
Peneira com falha
Meu deus

Sonho barato
Tem cão e tem rato
Fácil esquecer
Meu deus

Queremos a vida
Queremos vitória
Não somos torcida
Meu deus

Refrão avenida
Mulher sem partida
Fé divertida
Meu deus

Interrogo o azul
Se quero ou se sim
Se posso ou se sim
Meu deus

Encara, encara
Canção que não para
Não vai e não sara
Meu deus

Seremos detidos
Seremos, amigos!
Em vozes de sede de mais
Meu deus

Que seja, titio
Apedreja, meu filho
Veremos é quem sangra mais
Meu deus

Parte III – Vestígios
As coisas que a faísca não lambe
As coisas que a roda não corta
As coisas que o cal não reforma
Sempre elas voltam pra soar na umidade tóxica
É só parar pra ver vestígios…
A memória não perdoa
E sempre teremos memória.

Ritmo e catarse

Eu tendo a ser completamente meu
Mas não sei
De vez em quando você aparece no caminho
E não sei…
Se devo encher balões ou soar clarins, não sei
O que sei é que você aparece,
Mesmo que não seja sempre,
E eu tendo a mudar meu caminho
Mas apenas tendo…
A gente não sabe ninguém
A gente não sabe quem é
E se sabe fica louco, muito provavelmente
Porque é nas esquinas de dentro da gente
Que moram as coisas brotadas do céu.

Niilismo

Eu deixarei que a fresta rubra
Se cure, inadimplente.
Eu deixarei que sugo corrompido
Vaze pelos poros do desejo.
Eu deixarei que a pele intacta
Se devaneie envenenada
Eu deixarei… eu, calmamente
Porque o fogo não purificará
O passado ou futuro mortos;
Ele simplesmente transformará
De forma rápida e silenciosa
Todas as feridas de medo, de ódio, de inveja e de asco
Em cinza básica.
Aí o vazio tratará de emancipar as coisas do coração
Que será memória.

Do subsolo

Sou a semente no escuro
Porque torço e fervo
Como água não corrupta.
Sou a falha no assalto
Porque frimo e silencio
Como menino no escuro.
Sou o coração taciturno
Porque sofro as dores da pedra
E insulto a terra do mundo.
Sou o vento no calendário
Porque consulto a sequência da névoa
Pra fugir do fogo e do frio.
Sou a sequidão na garganta solerte
Porque acredito na trova inconclusa
E atino para além desse oeste.

Por amar a minha casa

Amanhã sou eu quem amanheço
Amanhã sou eu quem lanço sobre a treva serrana
O solar das coisas boas, as cantigas de luz e tudo mais.
Amanhã sou eu quem não permito fenecer
Amanhã sou eu quem nego o frio
Amanhã eu posso ser o que quiser.

A terra é azul e você sabe que sim
Seu sangue é vermelho e eu insisto que sim
Agora é primavera, moça, e as noites estão priorizando o calor dos nossos corpos
Então deixa de frieza, deixa de isquemia
E vem sentir que as coisas fluem
Que a dilatação é universal
E que o azul é nosso pra durar.

Amanhã sou eu quem permaneço
Amanhã sou eu quem construo a casa no azul
E moro no azul com quem eu quiser
Amanhã sou eu quem escolho que fico
E você, querida, é quem escolhe se vem, se fica, se dissolve ou se anoitece.

A voz do sangue

Vai, calma asséptica, vai!
Destoa, perpassa, aflige…
Vai desconcentrar a fúria alheia
Vai atormentar a quem serpeia
Vai, calma concisa, vai revelar o seu propósito
Canta a canção que te disseram pra não cantar
Faz surgir o amor nas coisas tolas
Nas pétalas de vento
Nas estrelas de plástico
Na esterificação do vômito
Na implícita consagração dos declínios
Em tudo, em tudo!
Espalha sua influência por todos os campos
No beira-mar das auguras
No empobrecimento das riquezas vertentes…

Calma asséptica, precisamos de você…
Nosso tempo já é quase passado
Nossa casa já é quase vazia
Nossa voz já é quase engraçada…

Poema de sangria nº3

Ainda assim, na expansão rosada do horizonte
Não eram castanhos os versos gravados em rocha magmática
Eram algo além – ainda a ser
E já mutante como nunca e sempre seria
O vão do sim.

O vão do seu sim
Manchou orgulho de sabor
O estalar dos seus tinos
Inundou o orvalho com sequidão
Saciou a fera com perdão…
O vão do seu sim.

Indignada, minha autossuficiência se debate
Ao arremate…