Category Archives: Prose

Pênsil, informe, sincera

Hoje, a música que soa é um pouco menos complicada.
É uma canção que transita pela paz e se encontra na desolação, como se em calma a felicidade fosse desfeita indubitavelmente por não conseguir perpassar os mistérios mais profundos, aqueles aos quais a paciência não oferece caminho.
É um pensamento, muitíssimo sóbrio, que reconhece que a falta de tristeza não é tão admirável assim. É um sentimento irônico que se pergunta se, pacificamente, os sonhos não se enrijecem e perdem a noção de espaço e de tom.
É uma coisa informe, sem proporções racionais, que não pretende nem calcula coisa sequer. É uma melodia muito simples, sem rebuscamentos, que só pede que todos os momentos sejam vividos com a noção de que nada será como antes, ou como agora.
É mais ou menos isso aí. Não é muita coisa.

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Pensamento fragmentado e não necessariamente lírico

A lei que me governa é a mesma lei que te domina

Mas não se engane; eu não sou como você é.

A submissão é, antes de mais nada, um estado da razão humana. Alguém pode se tornar submisso simplesmente por não se sentir afeiçoado ao pensamento, ou mesmo necessitado dele, por se sentir uno em carne, desejos apaziguados e devassidões paliativas. Alguém pode se tornar escravo por não enxergar que existe sobre ele qualquer domínio. Na verdade, essa é a principal causa da escravidão da mente; o modo mais eficiente de subjugar alguém é dar a ele o que, por meio da manipulação sistemática estipulada pelos sistemas coletivos de funcionamento da economia(a geratriz de tudo) e da sociedade(em consequência à primeira), pensam que querem. Isso significa ceder ao homem a sua liberdade e, ao mesmo tempo, ter total controle sobre essa liberdade cedida.

A publicidade, com seu cínico dizer subjetivo e, entre as formas mais eficazes e assustadoras de controle, o jornalismo aparentemente sóbrio e apartidário são os grandes agentes da destruição da autonomia do pensamento humano.

Pelas ruas da cidade

Eles não podem cantar porque têm a garganta seca e suja de escarro

Eles não podem sonhar porque vivem na rua(e os arranha-céus lhes tampam o horizonte)

Eles não falam de nada belo, porque beleza é, afinal,  afim à bonança

O mundo visto do chão é algo bastante diferente. Percebe-se que existem muito mais zonas sul, muito mais centros da cidade, muito mais tipos de pessoas que se dizem boas, muito mais coisas ruins.

Se o mar da rua é aberto, não há refúgio. É preciso se virar na selva, e é o que eles fazem. Sua malária me parece ser aquilo que é mais facilmente absorvido pelos capilares de seus alvéolos, aquela fumaça bonita e perversa que faz o mundo desistir de ser mau.

Seu filho tem medo deles. Seguindo os conselhos, os exemplos silenciosos que você dá todos os dias. E talvez você até perceba o que faz, antes de se lembrar que é dia de jogo, ou que é o capítulo final de mais uma telenovela de merda(porque vários outros já doaram seu tempo à desconstrução conceitual dessas formas patéticas-e extremamente eficientes-de manter a boca imbecil do povo ocupada com, bem, outra merda que não seja a que realmente os afeta, com a qual realmente há alguma valia em se gastar energia, não vou ficar aqui falando de coisas com as quais você finge que concorda).

Eles não aprenderam a pensar nisso. Acho que estavam ocupados a fugir de animais de fumaça preta, a aprender a viver na selva. Talvez, não ouso exibir se compreendo, isso não seja sua culpa.

Mas você? Seus filhos? Disso eu entendo, pois faço parte dessa caldeira de gente inutilizada pelo trabalho, infecunda pelo prazer que os é concedido. Qual será a diferença, então, como me indagam com incômoda frequência, entre eu e vocês? Eu digo:

Você lê minhas palavras, escuta a minha ira, e vê, efetivamente, nesse exato momento, em que estrada está a minha vida. Será que nela permaneço? Ou será que dela me pescam displicentemente, como a tantos outros de que ouvimos falar anos depois? Dito e feito, espero que não seja só o tempo quem diga.

Conflito, pra quê?

Não é dilema a falta de eternidade do mundo, é simplesmente a verdade que, sem pedir para ser compreendida, passeia por cada uma das vênulas e arteríolas do seu corpo.

Não importa o que se faça para apascentá-las, não há vagas que deixem de quebrar na praia.

Para quem irrompe do solstício

Pobre é o homem mau, que só percebeu que a Lua o dominara quando a viu deitada ao seu lado, morta pelo prazer profano, iluminado pelos primeiros raios de Sol.

Conluio da luz

Eis que o vencia a imagem distorcida do limiar dos dias mais reclusos, tomando-lhe a palavra, galgando cada flerte conotado da voz não-tonalizada com a simplicidade de uma brisa estéril. Imagem tal que a corriqueira independência encefálica não conseguiu alimentar esperanças de barrar suficientes feixes de luz para negá-la de qualquer maneira, se entregando, talvez consternada, à recorrência do estado ignóbil do desconhecimento.

E qual canção não soou mais ameaçadora, ou qual caminhada não se transformou em paranoia? Se a paz alheia o dominava, se o desejo férreo o abandonava suave e constantemente, a cada gota de ternura que deixava derramar…

Seria injustiça o despojo do guerrilheiro de tantos anos de história? Ou seria simplesmente o vértice último de seu merecimento, de sua contribuição à arte da penúria? Levá-lo, assim sem qualquer explicação, rumo à serenidade, à pacificadora cegueira dos veteranos desiludidos, como se não houvesse dentro daquele coração qualquer resquício de perseverança…

À santa das horas vagas

Por que você não se alimenta do cárcere de sua evolução mal-sucedida? Aprender com sua imbecilidade, não se acomodar ao ser patético, cômico, irônico na própria locomoção bípede(esse seu mais absoluto dos méritos) que é você em toda a sua glória. Seria uma boa ideia de ocupação para essa massa desperdiçada de carne, essa tentativa fracassada de ser gente, essa poluição intelectual que suja o nome dos homens. Eu realmente queria poder dizer que é comovente e inspirador ter esse organismo digno de pena contido no meu campo de visão, mas não há nada mais jocoso que explorar a ideia de que alguém como você possa ser incluído em nossa espécie.

Corroboro

Quisera eu desvincular lembranças da falha câmera que grava a minha vida, talvez teria diante de mim uma obra-prima de vivência, uma exemplo de perfeição incontestável, em vez de imagens cada vez mais oblíquas e opacas.

Mas acontece que eu sou poeta, e não cabe a mim organizar meu pensamento. Falo de uma força extrahumana, de um impulso incontrolável que me traduz mais sabiamente que qualquer oratória. É o que me domina ao desenhar letrinhas, ao saborear no paladar diário algumas palavras comumente. É o que vive em mim e vai viver em quem se apresentar nessa mísera epopeia.

Ao invés disso, você poderia…

O invés chegou com um tapinha paternal no ombro e me disse com um sorriso domingueiro: “agora é a minha vez”.

Como era de se esperar, eu me desvencilhei presto daquele gesto sem sentido e o confrontei com a parte mais divertida de mim, o sarcasmo.

“Meu querido amigo, meu correspondente psicológico, meu amontoado de folhas A4, será que você não entendeu até agora? Ao invés de você, existe um eu que se dá muito bem com qualquer coisa de impulso, de euforia, de perplexidade. Existe um folclore pretérito que mistifica a mim mesmo e me complica ao ponto de me forçar a reconstruir minha psique na diária inconveniência da vida. Pra quê seguir você e seu comodismo, seu chavão ordinário de blockbuster americano? Nada disso. Temos de tudo o que precisamos bem aqui nessa cidade, e eu me incluo nessa primeira pessoa do plural com tanto orgulho como posso conter nos meus sorrisos cotidianos. Eu sou um fabricante de vivências, e não um mero monge copista. Pense bem, olhe bem, veja bem a quem se refere quando surge o meu nome no discurso: estou além de você e de suas soluções mesquinhas, de sua ajuda sem consciência das palavras meras, chulas, tolas que ordenha com sua lábia assalariada. Tire suas mãos de mim, evapore para outro lugar, distante do meu campo de vista, e volte a ver novela.”

Pobre amigo! Pobre invés que se sentiu ofendido com a própria falta de originalidade, atirada com jocosa violência à sua cara de espanto! Qual acidificação não se propôs à saliva que eu cuspi com tanto gosto?

Gangrena

Vi-a morrer ali, insensata, titubeando e despejando balbúrdias horrorosas de ingratidão à vida. Vi-a penar, amassada, dolorosa, extremamente amarga. Não via um banho há meses, em seu estado cadavérico um agravante sutil à visão funesta. Dava nojo vê-la assim, perdida nos murmúrios dispensáveis da cidade, secretando mórbidos fluidos malcheirosos. Sofria dolorosamente, agonizando até o fim.

Eu não fazia menção sequer a um hipotético esquecimento daquela cena por minha parte, era impossível. Apenas imaginei as centenas como ela. Pensei nas versões sem detalhes, versões-família do acontecido que seriam contadas no horário nobre por rostos profissionais, insensíveis; nas sucintas, apressadas e grossas narradas pelos jornalistas de rádio; pensei nas versões que seriam relatadas de pessoa em pessoa, seguidas de chavões e insultos repulsivos a uma multitude de pessoas de quem esses locutores e locutários nunca ouviram falar; e penso com desgosto e vergonha na cereja do bolo dos noticiários: Balanço Geral, qualquer que seja o nome dessa merda. Família incinerada e, depois, a nova tecpix(“os x primeiros a ligar ganham também uma passagem de ônibus para o Inferno!”).

Eu pensei nela, suja e indigente. Se o relato desaparecesse, ela não passaria de custo adicional, mais um fardo ao dinheiro público. Não existiria passagem sua pela vida de qualquer pessoa. Não sei quantos que chegaram a conhecê-la sabiam seu nome, nem quantos dos presentes certamente irão esquecê-la na primeira oportunidade, como uma tragédia vista no supracitado projeto de tortura televisiva. Será que algum membro recluso da família obtusa gastaria seu precioso tempo para lembrar do nome?

A reflexão chega a não ser consciente. Uma cena assim faz pensar no resto das coisas que empurramos pro lado, a fim de ganhar mais tempo. Ensinam aos nossos filhos na escola que somos a mesma coisa, todos e tudo, desde os vermes que comerão os restos da mulher morta até os fios de cabelo de algum jogador de futebol que ganha milhões por ser excepcionalmente imbecil, e que o fim, independente de crença ou credo ou qualquer coisa, é o mesmo para todas as coisas, na eterna reciclagem de tudo o que existe. Ainda assim, os vemos crescer como nós e não temos a mínima decência de tentar torná-los melhores. Alguns de nós, os menos ajuizados, chegam a sentir orgulho disso. Eles decoram o quanto ganha um engenheiro recém-formado, mas não compreendem o valor de alguém que nasce com o dom da poesia. Nosso reflexo, tendencioso à fobia da perda de tempo, se estampa no rosto de cada um. Os construímos assim, exemplificamos diariamente, para que saibam que tudo o que é bom ao próprio ser tem o infame defeito de não gerar lucro algum. Que a morte é um número que só precisa ocupar um dia de luto em nossa agenda. O sofrimento é um detalhe, a economia é divina, que tudo o que se passou não vale a pena ser resgatado, a não ser que se ganhei à hora por esse esforço. Somos esse exemplo.

A gangrena da terra se acumula. A fúria do mundo não perdoa. Ora verruga, ora íngua; e chegamos a infecção. Não somos páreo para as Forças que nos guiam, não importa para quem trabalhamos, o quanto nos pagam, ou para qual prêmio competem. Que venha a febre e o inchaço e, além, a cura. É pois que, senão elas, não há passos que perfurem a necrose.