Orografia sob as lágrimas do céu

Veja a chuva dessas serras…
Parece que meus versos nublaram esses céus
Coisa mais bela não há.
Ela é o que mais me impressiona na cidade
Tudo fica belo sob o beijo das lágrimas do céu.

Os edifícios se misturam à troposfera acinzentada
Há poucas pessoas na rua
Muitas se unem sob marquizes e outros abrigos
Em união de necessidade
Coisa mais bela não há.
Sempre vejo jovens se rindo na chuva
Alguns casais introspectos correndo, depressa correndo
Sempre vejo crianças unindo as mãos e brincando de reter nelas as gotas da chuva
A chuva é desculpa pra faltar ao trabalho,
Pra chegar atrasado ou sorrir sem motivo
Pegar carona, começar uma conversa, apagar um cigarro
A chuva vem dos céus para nutrir a poesia
E talvez acalmar a quem dela sofre…
Coisa mais bela… será?

A chuva também é a justiceira das serras:
Ela chega para mostrar ao concreto e ao asfalto
Que eles não seguirão impunes.
Ela vem para pôr medo nos pobres corações urbanos
E para mostrar que as águas por baixo da cidade vivem infinitamente mais que os homens e seus pertences.
A chuva regurgita o que a metrópole esconde debaixo de si
As lágrimas do céu trazem a tragédia e perguntam:
“Até quando isso vai durar?”

A chuva é uma insaturação de clemência
Sua punição é a misericórdia em ação plena
Essa chuva, essa água, essa bruma…
Coisa mais bela não há.

Poema fático

Eu chego de repente e posso ir embora quando você menos esperar
Mas me espera!
Existem coisas boas nesse espaço
…mesmo assim, tome cuidado comigo…
Eu tenho a lírica da dúvida
E trago vários poemas bélicos no peito
Eu viajo por palavras desconhecidas
E acometo os sons que comumente se ouve por aí.
É provável que meu lugar não seja essa terra de perfumes, de serras…
Mas prefiro continuar aqui e viver o que ninguém sabe.
É melhor inspirar o ar quente de um fim de tarde maltado
Que esperar por algo mais despretensioso, menos dourado.
Ainda assim, é preciso ter cuidado
Nada se sabe, nada se prevê
E eu posso ir embora na noite, antes de um suspiro,
E fazer do espaço uma lembrança boa.

O galanteio contábil

Eu surgi, finalmente, sobre o céu da vela acesa
E no vale das demências entrou a primavera
E o suor das clemências amansou a fera
E eu pude amar em paz.
Eu reverberei em ecos avultados de liberdade
E minha força foi se transformar em calor
Nos braços da brisa, em cenas sem rancor.
Eu quis que a vida mesmo me abraçasse
E que a solidão dos lábios das mulheres
Me deixasse, sem temor e sem demora.
Eu realmente desejei a felicidade
Porque sua busca de repente deixou de me denotar culpa
Acho que amei foi assim.

Palavras e fotografias

“Olá”, o clique da máquina
E a adrenalina imediata

Ela me viu através das lentes e me perguntou quem eu era
“Mas você já me conhece!”
…acho que conheço mais a sua imagem nessa tela.
Ela pretendia me capturar com as tais lentes;
Eu fui pego de surpresa, sem pensar em desistir.

As coisas que ela falava comigo
As coisas que imploravam por liberdade
Que pediam música
Que pediam desesperadamente que eu cantasse!
Eu a via sorrir de melancolia, gargalhar de desespero
E pensava em suas lentes como um espelho.
Agora, no meio de um depois alongado sobre um tempo fugidio,
Vejo a têmpora adormecida, o olhar entumecido…
Mimetismo breve, sucinto
Sincero mensageiro.

Eu lembro agora do que achei que não sabia
Eu penso que, embora a tivesse em demasia,
Não era perspicácia a virtude conspiratória
Era ela, a hora errada
A cena inexata que me dissociava
De toda austeridade com que eu fugia…
Ou teria fugido, se tudo não fosse tão em vão
Ou se eu tivesse o dom

Você quer que eu conte
Como é a vida do lado de cá?
Se eu te contar o que sei,
Se eu for até onde suas lentes não alcançam,
Será que eu não a veria chorar
Ou será que você se acostumaria à falta de consolo?
É… ao surgimento de um porém assim, me ausento
A força das palavras impressiona
Como o calor das fotografias atordoa
Somos assim.

Sábado

Como uma fuga altruísta surgisse de repente
E todos os desencantos que anuem mal corassem,
Um cálice de vinho se partiu nos azulejos de uma sala
E uma mulher impetuosa disparou mais uma ordem ao seu deus.

Fuligem

Eu vivo na tristeza da rua
E nela percorrem ventos em espera
Frios periódicos e convulsões diárias.

Eu aprendi com a tristeza da rua
A me despertar com o berro do soldado
E a fugir dos perfumes dos vândalos.

Eu sonho na tristeza da rua
Mas ninguém que me habita o sonho ou a prece
Percebe o eco no vão em que soam.

Eu odeio a tristeza da rua
Mas os meninos que vagueiam por aqui
Têm vozes tão falhas e roucas…

Eu boio na tristeza da rua
A inércia me alimenta o ódio
E os frutos do tempo não cumprem sua função.

Eu viajo na tristeza da rua
Sua nudez agressiva me demanda passos
E passos eu dou, no engenho da sobrevivência.

Eu sobrevivo na tristeza da rua
Se ouço o machado bater na madeira, ao longe,
Fecho os olhos e conto os dias.

Eu vivo na tristeza da rua
E sei que ela é negra e má como o homem
E que nós somos os culpados de tudo.

Perigo na noite

Um luar atuou em loucura
Ao permitir que uma mulher viesse nua
E descesse das estrelas de que surgira
Em seu único momento sem frieza.

O mundo então se acanhou
E a própria noite quis se retirar e ir dormir
Para que o instante esquecesse suas dores
E os dois pudessem desistir da razão
E se entregar a sós.

Como fosse um rio ignorando leitos,
Ela invadiu o homem de pedra.
A mulher, pois, se assemelhava ao tempo:
Era abraço, era dança
Encarcerava e corrompia
Ensinava o homem a morrer só.

Pobre homem! em sua ignorância e seu langor!
Coisa de pedra que luta contente…
Ele não sabe o que faz!
Ela não sabe o que mente!

Motilidade semântica

Cada dizer é uma tentativa
Toda palavra é uma mancha ativa
São cascatas de pensamentos que revolvem,
Escapam à garganta e fogem velozes
Para um além sem dono…

Pois se até aquele adeus-sorriso é um impulso!
Uma força reprimida, uma falta de discurso
E mesmo se os lábios têm vontade
As vozes mentem. O suor, o riso, o olhar…

Existem coisas que só existem como coisa.
Como perfurar a muralha do vento
E penetrar a morada dos teus ouvidos
Se o que é preciso dizer é indizível?

Canção de Setembro

A rua quieta e as nuvens me protegiam do céu
As bandeiras encharcadas me olhavam e pediam perdões
E perdões demais
Com minha força, eu só fui até a lua
Talvez para caçar mais almas
Talvez para habitar outras casas
Talvez para nadar no nada…
Mas eu sonhei uma canção inexistente
Não me dispus a cantar:
Eu quis que a canção nascesse do outro lado da cidade,
Onde uma criança sorria,
E uma criança sorriu.

Revelia

De repente, o firmamento abocanhava uns olhos
E o sereno os acolhia, tão de súpito.
Fragmentos de rosas mornas, de algum modo,
Penetravam a atmosfera do instante
E a protagonista adentrava o hemisfério;
Nunca profanação alguma fora tão bastante.

Em sua insolência, os dedos da protagonista
Invadiam a órbita de uns lábios,
Impedindo que eles se partissem
E rompessem o silêncio que crepitava.

A protagonista, como augurasse, de repente
Se deixava pálida como a luz da qual bebia
Ao calmamente, gentilmente
Desafiar uma sanidade endividada
E abandonar a coisa sensata.